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A Persistência da Memória, de Salvador Dalí (Foto: Reprodução)
A Persistência da Memória, de Salvador Dalí (Foto: Reprodução)

Por meio de alguma rede social que o escritor Miguel Sanches Neto me disse: só podemos ler de verdade o livro que desejamos, de fato, ler. Eu comentava sobre as pilhas de leituras que crescem ao redor e da alegria de ter um tempo sobrando para ler puramente por prazer.

Até para defender o meu lado, tendo a não concordar com o Miguel. Não plenamente, pelo menos. Há livros e livros, também há formas e formas de leitura. Mas fiquei encafifado com a ideia. Uma coisa não nego: há livros que merecem uma leitura sem prazos ou outras pressões para que possam ser aproveitados da melhor forma possível.

Nos últimos dias andei navegando por "A Jangada de Pedra", romance de 1986 do português José Saramago. Tivesse que ler correndo por qualquer motivo, não curtiria tanto a jornada do grupo de desconhecidos que se aproximam, passam a conviver e lidam com o fantástico descolamento da Península Ibérica do resto do continente europeu.

De uns tempos para cá, virou moda falar em devorar páginas e se gabar de ler trocentos títulos por mês. Nada contra os bitolados, mas é tosco dar ares de competição à leitura. Muitos livros exigem certo vagar, uma entrega para se familiarizar com o universo proposto, com o ritmo, a estrutura, a linguagem, algo que não combina em nada com um desafio contra o relógio. Saramago me parece um bom exemplo de autor que exige essa espécie de doação serena.

Sei que o papo contraria o imediatismo de nosso tempo. Só que estamos condenados a jamais conseguir ler tudo o que nos indicam, tudo o que surge como grande lançamento, tudo o que é apontado como a promessa da vez, tudo o que já é consagrado e merece a nossa atenção. Não há alternativa. Então, é melhor garantir a liberdade de escolher bem e ter o discernimento para entender o tempo que cada livro merece.

Outro dia, enquanto esperava o São Paulo entrar em campo para me iludir de novo com o futebol, passeava pelo "Sobre a Ficção - Conversas com Romancistas" (Tag/ Companhia das Letras), reunião de entrevistas com escritores feitas pelo jornalista Ricardo Viel - por coincidência, foi o Ricardo que me presenteou com um exemplar de "Jangada de Pedra" publicado pela Porto Editora. No papo com Javier Cercas, ele ouve que a literatura complica a vida dos leitores.

"Não diz: a realidade é assim. Diz: a realidade é ainda muito mais complicada do que você imagina. Se te dá todas as respostas, não é literatura. Não sei o que é, mas literatura não é", acredita o espanhol.

Mais pra frente, na conversa com Juan Gabriel Vásquez, Ricardo escuta do colombiano que a história e o jornalismo lidam bem com muitas coisas, mas o romance é mesmo insubstituível. É a arte que "nos permite acessar uma parte da nossa consciência que não conseguimos de outra forma, só podemos chegar a esses lugares de nossa condição humana por meio da literatura de ficção. Ou seja, se Dostoiévski não tivesse escrito 'Crime e Castigo' haveria uma parte da condição humana a que não teríamos acesso".

Aí sim. Para lidar com complexidades muito mais emaranhadas do que supomos e para perambular por esses cantos da consciência, estreitar a relação e respeitar o tempo de cada livro é fundamental.

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