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Brasil se afastou das principais democracias europeias e das Américas ao se unir a países como Arábia Saudita, Paquistão, Bangladesh, Afeganistão e Egito em discussões na ONU sobre violência contra mulheres (Foto: Reprodução)
Brasil se afastou das principais democracias europeias e das Américas ao se unir a países como Arábia Saudita, Paquistão, Bangladesh, Afeganistão e Egito em discussões na ONU sobre violência contra mulheres (Foto: Reprodução)

Uma política externa marcada pelo descarte do multilateralismo, pelo desmonte da antiga máquina burocrática do Itamaraty e por declarações que deixaram o Brasil mais distante de suas tradições diplomáticas e mais perto da diplomacia de países teocráticos do Oriente Médio.

No longo prazo, os desdobramentos mais perenes da política externa dos dois últimos anos serão um Itamaraty "menor", com atuação diplomática fragmentada pelo país, e um incentivo ao preconceito contra chineses dentro do Brasil.

Essa é a avaliação de alguns analistas de política externa ouvidos pela BBC News Brasil a respeito do legado do ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, que pediu demissão nesta segunda-feira (29/3). Será substituído por Carlos Alberto Franco França, diplomata de carreira que estava na assessoria especial da Presidência da República.

Araújo acumulava meses de desgaste no cargo de chanceler, principalmente pelas dificuldades que têm sido enfrentadas pelo Brasil na importação de vacinas contra o coronavírus.

Na última semana, essa pressão cresceu, ante críticas cada vez mais duras por parte de parlamentares. Em sessão no Senado, na última passada, Araújo ouviu de diversos senadores que deveria abandonar o cargo.

"Eu no seu lugar pediria demissão hoje", disse na ocasião o senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO). "Vossa excelência é uma grande dificuldade para o Brasil obter vacinas do exterior", declarou Kátia Abreu (PP-TO).

Mais tarde, Araújo continuaria a troca de farpas com Abreu, acusando-a de defender o lobby do 5G chinês no Brasil — o que elevou ainda mais a temperatura do embate com o Senado.

Na noite de segunda-feira, Araújo compartilhou no Twitter a carta de demissão que disse ter apresentado a Bolsonaro — a quem o ex-chanceler se referiu como "querido chefe". No texto, Araújo afirmou que, em seu mandato, lutou contra "correntes frontalmente adversas" no Itamaraty, e que nas últimas semanas foi submetido a uma "situação impossível": "Ergueu-se contra mim uma narrativa falsa e hipócrita, a serviço de interesses escusos nacionais e estrangeiros, segundo a qual minha atuação prejudicaria a obtenção de vacinas."

'Rastro de destruição'

Araújo era considerado um dos ministros mais alinhados à política ideológica do presidente Jair Bolsonaro.

"Araújo acomodou-se a Bolsonaro — quem, por traço de personalidade, não é um realizador, é alguém que opera em um nível mais abstrato e ideológico. Araújo teve de acomodar isso a uma máquina de quase dois séculos (o Itamaraty) e de tradição pragmática, pé no chão", aponta Dawisson Belém Lopes, professor de política internacional e comparada na UFMG.

As derrotas no campo externo foram sucessivas: a candidatura de Donald Trump, que recebeu o apoio explícito do governo brasileiro (rompendo com uma tradição de manter-se equidistante em disputas eleitorais estrangeiras), foi derrotada pela de Joe Biden nos EUA.

As declarações hostis ao governo chinês por parte de Araújo e demais pessoas próximas a Bolsonaro (como seu filho Eduardo) foram apontadas como um empecilho nas compras de matérias-primas de vacinas. E, por fim, a negociação internacional por vacinas prontas ocorreu muito depois da maioria dos países de grande porte.

Na opinião de Guilherme Casarões, a gestão de Araújo foi "prejudicial aos interesses do Brasil" e deixou "rastros de destruição" na política externa, tanto no desmonte da estrutura do Itamaraty quanto no posicionamento internacional estratégico e histórico do Brasil.

"Ele se tornou uma figura querida pelo bolsonarismo, mas às custas da tradição diplomática do Brasil", diz Casarões.

"Desde a ditadura militar à Nova República (a atuação do ministério) teve grandes traços de continuidade, principalmente em três aspectos: no universalismo, ou seja, o entendimento de que o país tem vocação para manter boas relações com o mundo; na integração regional, porque o Brasil sempre se viu como um centro de gravidade de um projeto coletivo de desenvolvimento econômico, abertura comercial e integração competitiva; e o multilateralismo, uma plataforma crucial de inserção brasileira no mundo nas últimas décadas - uma espécie de marca registrada do Brasil foi a busca de grandes pautas que pudessem ser tornadas globais, como meio ambiente e direitos humanos. E o Ernesto basicamente acabou com isso", prossegue o professor da FGV.

"A gente reduziu dramaticamente o número de parceiros estratégicos, abandonou o projeto de integração e esnobou o multilateralismo sistematicamente nos últimos dois anos." Isso estaria mais em linha, diz Casarões, com "os interesses de curto prazo de Bolsonaro e sua família, e com uma política externa mais pensada para a militância do governo, mas com pouca função internacional e que acabou nos isolando de maneira inédita."

Também chamaram a atenção de estudiosos de política externa as referências religiosas comumente feitas por Araújo. Em um texto em seu blog, publicado antes de sua gestão, o agora ex-chanceler afirmou certa vez que que "globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. Essencialmente, é um sistema anti-humano e anti-cristão". No texto, ele propunha um projeto político para "abrir-se à presença de Deus na política e na história".

Segundo Belém Lopes, da UFMG, falas do tipo mostram como a gestão de Araújo foi um "ponto fora da curva" na diplomacia brasileira, e análises acadêmicas apontam que isso nos aproxima mais do estilo de diplomacia de países teocráticos do Oriente Médio e da África do que da tradição diplomática ocidental e brasileira.

Legados no longo prazo

Segundo Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais na Fundação Getulio Vargas (FGV), essa quebra com os princípios que sempre regeram a diplomacia brasileira não é um legado permanente capaz de afetar no longo prazo a relação do Brasil com outros países, como os do Mercosul e da Europa — após uma eventual futura mudança de governo.

"Agora o Brasil tem uma péssima reputação por causa do Bolsonaro, mas um futuro presidente pode mudar isso", afirma Stuenkel.

"O mundo quer um Brasil forte e próspero, o mundo quer que o Brasil dê certo. Não é tão fácil e simples destruir essa boa vontade em relação ao Brasil", diz ele. "Isso não seria o caso de um país com passado bélico, por exemplo, em que há mais desconfianças internacionais."

Ao mesmo tempo, opina Stuenkel, algumas mudanças mais profundas causadas por Araújo devem se manter mesmo em um futuro governo pós-Bolsonaro: a fragmentação da atuação diplomática do Brasil, com o enfraquecimento do Itamaraty, e o uso do preconceito contra a China como arma de política interna.

"Esses são os principais legados pós-Bolsonaro de Araújo, efeitos de caráter mais duradouro", explica Stuenkel.
Itamaraty menor

Stuenkel opina que o objetivo de Araújo nunca foi fazer política externa, mas usar seu cargo para fazer política interna — e mobilizar a militância bolsonarista em temas internacionais. Com isso, diz, houve um grande enfraquecimento do Itamaraty e da atuação diplomática mais unificada do Brasil.

Para Guilherme Casarões, também da FGV, em termos concretos, a gestão) de Araújo "destruiu a própria burocracia do Itamaraty, que sempre foi tida como um grande ativo do governo brasileiro, independentemente de partido, com quadros muito profissionais, articulados, competentes em projetar a imagem do Brasil".

"Desde o começo, Araújo disse que a política externa seria de governo, representando os 57 milhões de eleitores de Bolsonaro. Mas isso acabou impedindo que Itamaraty pensasse a política externa para o longo prazo, além desses devaneios ideológicos."

"Na pandemia, como a política externa se tornou muito importante, outros agentes se tornaram atores-chave e passaram a preencher o vácuo de poder e de atuação deixado pela gestão de Araújo", afirma Stuenkel. "Os governadores que passaram a ter articulação no exterior e assumiram esse espaço não vão parar de manter contato com seus interlocutores lá fora só porque mudou o chanceler. E mesmo se o governo mudar, essa atuação mais fragmentada vai continuar", diz o professor de relações internacionais.

"Então o principal legado de Araújo no longo prazo é um Itamaraty menor, com uma fragmentação da atuação diplomática do Brasil", afirma Stuenkel.

"Quando o chanceler é ruim, a atuação dos governadores é algo bom. Mas será muito mais difícil voltar a unificar a direção internacional do Brasil no futuro."
Uso do preconceito contra a China

A outra mudança de longo prazo vista por Stuenkel é o uso da sinofobia (o preconceito contra a China e os chineses) como "arma de política interna".

Isso porque Araújo chegou a se referir ao coronavírus como "comunavírus", sugerindo que a pandemia seria parte de um projeto "globalista" chinês. Outras falas anti-China foram ditas por Eduardo Bolsonaro no Twitter.

"Araújo trouxe a sinofobia como ferramenta de política interna para mobilizar lado mais radical da militância bolsonarista, algo que não era feito antes no Brasil. E mesmo depois de Bolsonaro, qualquer populista lá na frente poderá 'ativar' uma parcela da população que é anti-China", explica Stuenkel.

"É um bloco de eleitores que a partir de agora está disponível e pode ser 'usado' dependendo de quem assumir. É algo que não vai embora tão rápido mesmo com uma postura diferente do Brasil na diplomacia", afirma.

E o uso político de um sentimento anti-China em uma parcela da população é algo que pode ter um efeito bastante negativo na relação de longo prazo com o país asiático.

"Nossa relação com a China só não é pior no momento porque eles são bem mais pragmáticos. Enquanto nossa abordagem com eles é ideológica, eles são práticos e estão pensando em daqui a 5, 10, 20 anos", afirma Carlos Gustavo Poggio, professor de Relações Internacionais da PUC (Pontifícia Universidade Católica).

Perspectivas para o futuro chanceler

O nome de Carlos Alberto Franco França comoo sucessor de Ernesto Araújo foi anunciado na noite de segunda-feira. Os observadores ouvidos pela reportagem não veem chances de uma grande guinada na política externa - embora aposte-se em uma atuação mais contida do futuro chanceler.

Stuenkel, da FGV, espera que muitas das posturas diplomáticas continuem, porque elas vinham do presidente. "Araújo mais executava uma visão de Bolsonaro do que tinha uma atuação própria", afirma.

Carlos Gustavo Poggio, da PUC, acha que é possível que a atuação seja uma pouco mais discreta justamente por uma mudança de postura do presidente e de seus filhos (que têm considerável influência nos rumos da política externa): "Um cenário mais otimista é que haja uma readequação da postura do governo porque a pandemia obriga o governo a ser mais pragmático. O estado da pandemia dá menos espaço para esse tipo de elucubração ideológica, como a ideia de 'globalismo'. A realidade vai se colocando porque a política externa é fundamental para a saúde", afirma Poggio.

"Os custos de uma política externa amadora ficaram claros. E o preço disso foi cobrado muito cedo por causa da pandemia."

Outro cenário possível, diz ele, é de que um ministro mais pragmático barre certas diretivas do Planalto que possam comprometer a relação bilateral do Brasil com certos países.

"No entanto, nesse caso, o que pode acontecer é esse ministro ir se enfraquecendo com o presidente e acabar trocado no futuro, como aconteceu com o ex-ministro Nelson Teich na pasta da Saúde. Nesse caso teríamos um cenário de diversas trocas de ministro", afirma Poggio.
As reações dos senadores: 'não podemos trocar seis por meia-dúzia'

Nesta segunda-feira, quando o pedido de demissão de Araújo já havia sido tornado público, alguns senadores reagiram pelas redes sociais.

"A demissão do ministro traz nova esperança para o Brasil, mas não podemos trocar seis por meia dúzia", declarou Mara Gabrilli (PSDB-SP). "O negacionismo e a truculência precisam dar lugar ao respeito, união e negociação. Precisamos resgatar o histórico de diplomacia do Estado brasileiro."

Jean Paul Prates (PT-RN) afirmou que Araújo "estava mais para antiministro das Relações Exteriores". "Apesar de ocupar cargo importante, Ernesto Araújo contribuiu apenas para estremecer relações entre o Brasil e outras nações historicamente parceiras", disse.

Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), importante defensor de Araújo, retuitou as acusações do agora ex-chanceler contra Katia Abreu, mas não comentou sua saída do cargo.

Araújo mudou o rumo da diplomacia quando assumiu o Itamaraty, em Brasília (Foto: Reprodução)
Araújo mudou o rumo da diplomacia quando assumiu o Itamaraty, em Brasília (Foto: Reprodução)

Araújo fazia parte da ala mais ideológica do governo (Foto: Reprodução)
Araújo fazia parte da ala mais ideológica do governo (Foto: Reprodução)

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