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Mário Magalhães e seu livro
Mário Magalhães e seu livro

Autor de "Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo", Mário Magalhães falou à Fórum sobre o cancelamento da estreia do filme de Wagner Moura, que foi baseado em seu livro: "A família Bolsonaro torpedeia a obra do Wagner. A censura avança"

Na semana passada, em meio à repercussão do ato ditatorial do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, ao determinar a censura de obras de cunho LGBT na Bienal do Livro, a população brasileira ficou sabendo que não poderá, pelo menos por enquanto, assistir ao filme “Marighella”. Dirigido por Wagner Moura, a obra conta a história do guerrilheiro brasileiro Carlos Marighella, que lutou contra a ditadura militar e morreu assassinado pelo aparelho repressor do Estado.

A equipe do filme anunciou que a estreia de Marighella foi adiada por não ter sido possível “cumprir a tempo todos os trâmites exigidos pela Ancine”. Não há uma nova data prevista para o lançamento no Brasil da obra que estreou em março no Festival de Berlim sob aclamação da crítica e do público.

Não demorou muito para ficar claro o que está acontecendo: o filme estrelado por Seu Jorge se somou ao caso do Rio de Janeiro e às outras dezenas de episódios de censura ou tentativas de censura nos últimos dias.

Pelas redes sociais, o jornalista e escritor Mário Magalhães, autor do livro “Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo”, que baseou o filme de Wagner Moura, comentou o cancelamento da estreia da obra audiovisual no Brasil. “É este o filme que não consegue estrear no Brasil. É esta a história que não querem que seja conhecida. É este o personagem que pretendem condenar ao esquecimento. O esquecimento é amigo da barbárie”, escreveu na legenda de uma postagem com o trailer do filme.

Antes, em maio, quando o filme já havia estreado em Berlim, Magalhães questionou se a produtora de “Marighella” se submeteria “ao obscurantismo dos novos censores”.

Não à toa. Por justamente contar a história de uma figura tão simbólica na luta contra a ditadura e o autoritarismo, aspectos vigentes neste governo, o filme “Marighella” é alvo de radicais da direita desde a fase de produção. O diretor Wagner Moura relatou que a equipe chegou a ser alvo de ameaças de direitistas nas redes sociais, que prometiam invadir o set de gravações – o que não ocorreu, de acordo com o ator, graças ao apoio de 15 jovens de uma frente antifascista, que garantiram a segurança da equipe.

Em entrevista exclusiva à Fórum, Mário Magalhães comentou a aparente tentativa de censura ao filme baseado em seu livro e ainda foi além ao fazer uma análise do momento que o país passa.  “A censura avança. Ela já reaparecera com vigor em 2018, como eu conto em um capítulo – ‘A censura de volta’ – do meu novo livro, ‘Sobre lutas e lágrimas’. Impedir a livre expressão, incluindo a artística, é atitude habitual de regimes antidemocráticos”, disse.

“Nos tempos da ditadura parida em 1964, da qual Jair Bolsonaro tem tanta saudade, as artes e a cultura também foram alvejadas. Para censurar, não é preciso declarar de modo escancarado, à maneira do prefeito Marcelo Crivella na Bienal do Livro do Rio. É possível asfixiar financeiramente o cinema e o audiovisual. Na forma, alegam-se pormenores burocráticos. O conteúdo, seletivo, é de censura da arte”, completou o jornalista.

Para Magalhães, o Brasil, neste momento, testemunha “o confronto entre civilização e barbárie”. “Não reconhecer a gravidade do que vivemos equivale a relativizar o compromisso de Jair Bolsonaro com causas obscuras”, analisou.

Confira, abaixo, a íntegra da entrevista.

Fórum – Mário, tenho observado suas críticas com relação ao cancelamento da estreia de Marighella no Brasil. A justificativa da produtora é que a Ancine teria dificultado o processo com uma série de trâmites. Como autor da obra que baseou o filme, sabendo o que ele representa e, diante dos ataques que o governo vem promovendo à cultura e ao audiovisual, acredita que possa haver uma motivação política para tamanha demora da estreia de um filme que já rodou o mundo?

Mário Magalhães – Não tenho informações suficientes para opinar sobre as decisões recentes da Ancine sobre “Marighella”. Sei que o ano tem sido de provações para o filme. Em fevereiro, no Festival de Berlim, as produtoras da O2 Filmes e o diretor, co-produtor e co-roteirista Wagner Moura se pronunciaram contra a recusa da distribuidora Paris Filmes de lançar logo “Marighella”. Em junho, no Festival de Sydney, Wagner lamentou que “os distribuidores não tivessem coragem de lançar o filme”. Em seguida, marcou-se o 20 de novembro para a estreia nos cinemas brasileiros. Como se sabe, é o Dia Nacional da Consciência Negra.

Em maio, o insuspeito deputado federal Alexandre Frota, então na base do governo Bolsonaro, tornou público que o filme “Marighella” se transformara em questão de governo e de Estado. Frota falou em tom crítico, contra a perseguição, embora tenha aversão pelo personagem.

É fundamental identificar as circunstâncias em que se tentou lançar, sem sucesso, o filme em 2019. A família Bolsonaro torpedeia a obra do Wagner. A censura avança. Ela já reaparecera com vigor em 2018, como eu conto em um capítulo – “A censura de volta” – do meu novo livro, “Sobre lutas e lágrimas”. Impedir a livre expressão, incluindo a artística, é atitude habitual de regimes antidemocráticos.

Nos tempos da ditadura parida em 1964, da qual Jair Bolsonaro tem tanta saudade, as artes e a cultura também foram alvejadas. Para censurar, não é preciso declarar de modo escancarado, à maneira do prefeito Marcelo Crivella na Bienal do Livro do Rio. É possível asfixiar financeiramente o cinema e o audiovisual. Na forma, alegam-se pormenores burocráticos. O conteúdo, seletivo, é de censura da arte. Como eu também cito no meu novo livro, o brilhante crítico Mário Pedrosa ensinava que “a arte é um exercício experimental da liberdade”. A arte e os artistas incomodam os liberticidas.

Fórum – Hoje soubemos que o Itamaraty censurou a exibição de um filme sobre Chico Buarque no Uruguai. Além disso, o governo Bolsonaro divulgou uma portaria que suspendeu verbas para produção de filmes de cunho LGBT. Na semana passada, no Rio, vimos uma tentativa de censura, por parte do prefeito Crivella, a livros da Bienal. Como jornalista e escritor, qual avaliação faz sobre este momento?

Mário Magalhães – Testemunhamos o confronto entre civilização e barbárie. Não reconhecer a gravidade do que vivemos equivale a relativizar o compromisso de Jair Bolsonaro com causas obscuras. O presidente diz que feminicídio é mimimi e que quer acabar com a Lei do Feminicídio. Defende a tortura. É nostálgico da ditadura. Pesa seres humanos em arrobas, medida empregada para determinar o peso de animais. Fala “que as minorias desapareçam” – discurso de extermínio. Cogita “ponto final” para os ativismos – por pouco não disse “solução final”. Está empenhado em destruir um século de conquistas dos trabalhadores. Empurra milhões de pessoas para a pobreza extrema. Declarou guerra à cultura e às artes. É um desastre para o meio ambiente. Quando vejo gente relativizando Bolsonaro, lembro da canção que Milton Nascimento e Ronaldo Bastos compuseram para o estudante Edson Luís, morto em 1968: “Quem cala sobre teu corpo/ Consente na tua morte”.  Quem cala hoje consente com a barbárie.

Fórum – Quais avalia que sejam as consequências para um país quando ele é governado por um presidente que impõe e incentiva filtros de cunho ideológico à produção cultural?

O presidente é a favor da censura. Quem defende a liberdade é contra a censura. Eu sou contra censura às artes em qualquer país. Repito: em qualquer país, qualquer regime. Mais: “filtro” é eufemismo; trata-se, é claro, de censura.

Fórum – Qual você acredita que seja o “temor” do governo ao não querer permitir certas produções culturais que dialoguem com a esquerda, com a história ou com a temática de gênero? Isso representaria algum tipo de ameaça ao tipo de governo que querem exercer?

Mário Magalhães – O poder instaurado aposta na ignorância para submeter à sua vontade cidadãs e cidadãos. Por isso investe contra o conhecimento – na educação, na pesquisa. E teme a arte. Porque, como expressão da liberdade, a arte rejeita a opressão e o silêncio imposto. A arte estimula o pensamento e a reflexão.

Fórum – Qual a importância para a população em saber a história de Marighella em tempos como o que vivemos agora?

Mário Magalhães – Quando eu lancei a biografia, em outubro de 2012, observei nos agradecimentos que Carlos Marighella era um personagem maldito. Ele continua a ser, não é à toa que o Wagner Moura enfrenta tantas dificuldades para estrear o filme inspirado/baseado no meu livro. Durante um bom tempo, a ditadura foi razoavelmente bem-sucedida em seu projeto de condenar Marighella ao esquecimento. Mais do que as ideias que ele esgrimia, o temor era o do exemplo de suas ações.

Minha impressão é que hoje Marighella provoca mais amor e ódio do que quando pegou em armas contra a ditadura. Isso tem a ver com o Brasil de agora. O presidente defende a tortura; Marighella foi torturado (21 dias consecutivos, em 1936). O vice-presidente considera o 13º salário uma aberração (“jabuticaba”); o constituinte Marighella pelejou sem sucesso pela introdução do 13º na Assembleia que formulou a Carta de 1946. Bolsonaro e Mourão cultivam o ídolo Carlos Alberto Brilhante Ustra, oficial torturador, enquanto Marighella dedicou a vida a lutar contra o nazifascismo. E por aí vai. A memória de Marighella perturba o poder autoritário.

Conhecer a história de Marighella, até hoje sonegada nos livros escolares, é um direito democrático. Ninguém precisa gostar do filme do Wagner, da biografia que eu escrevi, do personagem histórico Carlos Marighella. Mas não se pode impedir que se conheça a história do Brasil. Conhecer a própria história é um direito dos povos. Ninguém é obrigado a ir ao cinema. No entanto, não se pode impedir que quem quiser ir vá.

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