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Bahia

O Atlas é elaborado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro da Segurança Pública (FBSP), com base em dados de 2017 (Foto: Reprodução)
O Atlas é elaborado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro da Segurança Pública (FBSP), com base em dados de 2017 (Foto: Reprodução)

Tanquinho com apenas 7 mil habitantes é destaque no Atlas da Violência; até prefeito foi ameaçado

Áudios de traficantes de drogas que atuam na cidade de Tanquinho, na região de Feira de Santana e destaque no Atlas da Violência dos Municípios, divulgado na segunda-feira (5), como segunda mais violenta da Bahia, apontam um acirramento da guerra pelo comando do tráfico nos próximos dias na cidade de 7 mil habitantes.

Os áudios são atribuídos a comparsas do traficante Leandro de Almeida Viana, conhecido como TX ou Chatuba, morto pela Polícia Civil nesta quarta-feira (7), durante um confronto no bairro de Sussuarana, em Salvador. Segundo a polícia, ele comandava de longe o tráfico e ia a cidade apenas para executar desafetos.

Com ele foram encontrados um revólver calibre 38, pinos para embalar cocaína, balança, certa quantidade de droga, três celulares, relógios e anotações referentes ao comércio de drogas.

Há cinco dias, uma submetralhadora calibre 9 milímetros, uma pistola calibre 380, um revólver calibre 38, carregadores e munições foram apreendidos em Tanquinho, com integrantes do grupo criminoso de Chatuba. As armas eram do traficante e estava sendo transportadas por comparsas a mando dele, diz a polícia.

Em Tanquinho, Leandro, que, segundo a Civil, era ligado à facção Bonde do Maluco (BDM), rivalizava há cinco anos com o traficante Felipão, o Paraíba. Ambos já foram sócios no tráfico – Leandro (nativo de Tanquinho) fornecia armas e drogas para Felipão. Mas depois, Felipão se associou à facção Katiara, cuja base é em Feira de Santana.

Nos áudios, um traficante ligado a Leandro diz que “não vai deixar isso de bobeira [os pontos de venda de drogas], e nós pede apoio ainda maior que o de Chatuba, se for possível [para proteger a área]. Contato pra isso nós tem, pra botar fuzil, [pistolas] ponto 40, glock, e quem fechar com esses bichos aí vai morrer também”.

Na sequência, um comparsa de Paraíba responde: “Chatuba já foi, Paulinho e Elbe é questão de segundo. Agora é de Paraíba tudo, enquanto Paraíba estiver vivo. Botar esses alemão [inimigos] tudo pra vender pra mim agora”. A Polícia Civil informou que teve acesso aos áudios e que continua a investigar o tráfico na região.

Em Tanquinho, Leandro dominava as áreas dos bairros do Brogodó, Bela Vista, Rua do Cipó e Parque do Centro. Felipão, por sua vez, atua no Bebedouro, Invasão e Barroquinha. De acordo com a polícia, Leandro era investigado por quatro homicídios, sendo três deles cometidos este ano.

“Ele foi o responsável por assassinar um vendedor de água mineral em via pública”, disse o titular da 1ª Coordenadoria Regional de Polícia do Interior (Coorpin/Feira de Santana), delegado Roberto da Silva Leal, em um comunicado oficial da Polícia Civil, segundo o qual Leandro tinha ainda passagem por roubo e condenação por tráfico.

Outros áudios de traficantes que o CORREIO teve acesso – e que a Polícia Civil informou que também está investigando – sugerem uma suposta proteção de um o investigador da Polícia Civil ao traficante Paraíba, que teria ainda intimidado o prefeito de Tanquinho, Luedson Soares Santos (PTN), ainda conforme os áudios dos traficantes.

O gestor confirmou que recebeu as ameaças, mas que elas foram feitas de um celular da sogra de um vereador da oposição, contudo preferiu não citar nomes e nem quis dar detalhes sobre o assunto. Santos disse que entrou com processo contra o autor das ameaças, as quais foram registradas em boletim de ocorrência na polícia.

Moradores da cidade também relataram ao CORREIO ameaças do traficante Paraíba tanto ao prefeito quanto à sua família. A reportagem tentou contato com o delegado de Tanquinho, David Lopes de Araújo, também ligado a 1ª Delegacia de Feira de Santana, mas uma agente administrativa disse que ele está de licença.

Aumento de homicídios
Os dados sobre homicídios dolosos na cidade, registrados na Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), apontam para um crescimento em 2017 e 2018, em relação aos anos de 2015 a 2016.

Em 2017, foram registrados cinco homicídios dolosos, mais um latrocínio (roubo seguido de morte), sete tentativas de homicídio, cinco estupros, seis roubos/furtos de veículos e três prisões de usuários de drogas.

Ano passado, os homicídios dolosos chegaram a seis, além de mais duas tentativas, dois estupros, seis roubos/furtos de veículos e sete prisões de usuários de drogas.

De 2014 a 2016, houve apenas três homicídios dolosos em Tanquinho, mas outros crimes, como estupros (23 no período) e roubo/furto de veículo (21) se mantiverem em níveis altos para o padrão da cidade, cujos moradores ainda buscam entender como o tráfico de drogas encontrou espaço para se proliferar no município.

“A questão do tráfico segue uma lógica: tem de ter quem compre drogas. Então, ficamos sem saber quem é que está tendo dinheiro aqui para comprar droga, pois a cidade é pobre, ninguém tem pra ficar gastando assim”, comentou uma moradora de 26 anos que trabalha como caixa num mercado local e prefere não ser identificada.

Nascida em Feira de Santana, a moça foi morar em Tanquinho há cinco anos na casa de parentes porque “o bairro que morava em Feira [o Mangabeira] era violento”.

Segundo ela, “no início estava até bom, mas de uns dois anos para cá começou a ter assalto nas ruas, morte de gente ligada ao tráfico, e isso gerou clima de medo no comércio”.

“Estou em busca de emprego em Feira, quero mais ficar aqui não”, disse a moça, que apesar da sentir que a cidade ficou violenta nos últimos anos ficou surpresa com o fato de Tanquinho ter aparecido no Atlas da Violência dos Municípios, como segunda mais violenta da Bahia. “Muita gente está sem entender isso”, afirmou.

Dados da pesquisa
O Atlas é elaborado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro da Segurança Pública (FBSP), com base em dados de 2017.

Na pesquisa sobre municípios com menos de 100 mil habitantes, o estudo apontou que a cidade mais violenta da Bahia é Saubara, com taxa de homicídios de 125,8 por cada 100 mil habitantes. Em seguida vêm Tanquinho (123,8) e Simões Filho (119,9).

Pela Organização das Nações Unidas (ONU), a taxa aceitável é de 10 mortes para cada 100 mil habitantes. Salvador tem taxa de homicídio de 63,5 (a 5ª maior do país entre as capitais) no Atlas, segundo o qual a taxa média dos municípios da Bahia em 2017 era 41,3.

O problema do avanço da criminalidade nas pequenas cidades baianas, segundo o Atlas, são as facções criminosas, e para completar o quadro da violência na Bahia, diz o estudo, “o Estado tem adotado uma linha de enfrentamento e embrutecimento no uso de suas forças policiais, o que tem ajudado a alimentar o ciclo de violência”.

Para chegar à taxa de homicídios por 100 mil habitantes de Tanquinho – assim como de outros municípios pesquisados, o Ipea informou que usou o número de homicídios e mortes violentas registrados pelo Ministério da Saúde.

O conceito da taxa de homicídio estimada por 100 mil habitantes para cada município, diz o Ipea, “considera o número de óbitos por agressão mais o número de óbitos por intervenção legal mais o número de homicídios ocultos, isto é, mortes violentas com causa indeterminada”.

“Esses óbitos, na verdade, seriam homicídios ou suicídios, ou mortes ocasionadas por acidentes, mas para os quais as autoridades e o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde (MS), falharam em estabelecer a causa correta”, continua o estudo.

Na explicação do Ipea, o cálculo para a taxa de homicídios é esta: multiplica-se 100.000 com soma do número de homicídios e do número de homicídios ocultos, depois divide-se o resultado pelo número da população da cidade.

Para o caso de Tanquinho (com base em dados do Ministério da Saúde), os dados da população são de 8.232 habitantes (de 2017), de sete mortes causadas por agressão e estimativa de homicídios ocultos de 3,14.

“Se arredondarmos em 10 a soma de mortes por agressão e homicídios ocultos temos: [(100.000)x(10)]/8232 = 121,4. Sem as aproximações, ou seja, com a estimativa de 3,14, a taxa por 100.000 habitantes fica em 123,1”, informou o órgão em nota.

“Não duvidamos do estudo, é notável que a cidade está tendo um problema de violência. O que não entendo mesmo é como esse pessoal consegue vender tanta droga. Tanquinho é uma cidade pobre”, disse o prefeito Luedson Soares Santos.

O município, disse o gestor, vive basicamente dos empregos da Prefeitura (quase 400) e da pecuária, principal economia da cidade, que tem ainda 1.655 beneficiários do programa federal Bolsa Família, que enviará até o final do ano R$ 1,2 milhão, no total.

“Muitos jovens envolvidos com o tráfico vivem passando fome, dá meio-dia e os vejo comendo pão com guaraná, são magros, se vestem mal. Acho que o que os atrai mesmo é o dinheiro do tráfico, mas não vemos sinal algum de que estão tendo bens, como moto ou carro”, disse o gestor.

Santos informou que está dando atendimento a jovens que moram nas áreas vulneráveis ao tráfico de drogas e que tem conseguido tirar alguns do crime. Ele está no cargo desde 2017.

“No início da gestão, eram 27 jovens atendidos, hoje são mais de 300. Converso com muitos e vejo alguns que conheci desde pequeno, ainda criança. Tem os que mesmo tendo atendimento querem se envolver no crime, esses aí vão porque querem mesmo, daí nem falo mais”, ele declarou.

Mas o gestor destaca também um fato “positivo” relacionado ao tráfico: “Os assaltos e roubos, por incrível que pareça, deram uma diminuída nas áreas onde ocorre o tráfico. Teve um caso mesmo que uma pessoa teve o objeto devolvido e quem roubou foi punido. Claro que isso não deixou de ocorrer, mas pelo que vemos deu uma caída”.

A SSP-BA, ao ser questionada sobre a violência em Tanquinho, preferiu se ater apenas a questão dos dados divulgados pelo Atlas da Violência, cuja metodologia a pasta diz desconheces e que “os dados apresentados pela pesquisa não condizem com números registrados”. A secretaria não comentou sobre ações de segurança voltadas para a cidade.

A pasta informou ainda que “as estatísticas criminais estão disponível no site da instituição (www.ssp.ba.gov.br)” e que “a redução dos crimes violentos letais intencionais na Bahia ocorre desde 2017, com destaque para 2018 com o menor número dos últimos seis anos, e segue em declínio até o primeiro semestre de 2019”.

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